Como se livrar das músicas que grudam na cabeça

Gangnam Style

Basta assistir a um comercial na TV ou o vizinho ligar o som no volume máximo e, pronto, aquela música gruda na cabeça como chiclete na sola do sapato. Por mais que você tente esquecê-la, a música vem à mente assim que você acorda, no banho, no jantar, no metrô e por aí vai.

A boa notícia é que esse fenômeno, que atinge a grande maioria das pessoas, não vai te levar à loucura ou causar qualquer outro transtorno grave. A má é que, bom, músicas “grudentas” irritam, mesmo quando você gosta delas. Mas não se preocupe: a ciência já descobriu alguns macetes para você conseguir se desvencilhar delas.

Músicas-chiclete

Falecido em 2015, o renomado neurologista Oliver Sacks — e grande estudioso do assunto — tratou inúmeros pacientes com problemas bastante peculiares ao longo da sua carreira. Um desses casos foi o de uma senhora que, em 1970, teve um sonho muito intenso sobre a sua infância na Irlanda. Quando ela acordou, uma música irlandesa que ela ouvia quando criança apareceu na sua cabeça e não saiu mais.

O problema a incomodava tanto — muitas vezes ela sequer conseguia dormir — que a senhora teve que procurar auxílio médico. Após intensa investigação, Sacks descobriu que a mulher teve uma pequena trombose no lóbulo temporal direito que, de algum modo, a fez lembrar daquela música de forma anômala. Com o tratamento, a canção deixou de ser recorrente.

Mas, para a ampla maioria das pessoas, as músicas grudentas não são sintoma de nenhum problema neurológico, mas de um comportamento normal cujas causas não são completamente conhecidas, embora tenham íntima ligação com o modo como o cérebro funciona.

Não precisa ter letra: provavelmente o tema de Missão Impossível veio à sua mente agora

Não precisa ter letra: provavelmente o tema de Missão Impossível veio à sua mente agora

Qualquer música pode se tornar “chiclete”, porém, na maioria das vezes é possível encontrar estas três características: a música (ou um trecho específico dela) é curta, revela fácil compreensão e é identificada rapidamente, mesmo quando o som está vindo de um lugar distante ou barulhento.

Também é comum — mas não obrigatório — que essas músicas tenham melodias alegres ou agitadas, letra repetitiva e algum complemento sonoro que atraia a atenção, como batidas ou ritmos inusuais. Repare que jingles de comerciais exploram bem essas características — compositores e músicos sabem há décadas da nossa suscetibilidade a sons compostos com esses elementos.

Como certas músicas grudam na cabeça?

A música é uma forma de expressão que caracteriza sumariamente a espécie humana. Praticamente todas as sociedades tem a música como um de seus elementos de formação e evolução. Isso acontece, entre outros fatores, porque criamos laços emocionais muito fortes com as músicas. Por conta disso, estamos sempre dispostos a “captar” sons musicais. É por isso que você presta atenção mesmo nas canções que não correspondem aos seus gostos.

Embora não esteja claro exatamente qual mecanismo aciona o imaginário musical involuntário, como é chamado o fenômeno, sabe-se que a combinação de fatores emocionais com a memória é que dá margem para o surgimento de músicas que se repetem por horas ou mesmo dias na mente. A intensidade ou a frequência com que isso acontece varia de pessoa para pessoa, mas há pelo menos quatro gatilhos que parecem valer para todo mundo.

Ai se eu te pego, ai ai... Foi mal

Ai se eu te pego, ai ai… Foi mal

O primeiro, óbvio, é a exposição à música. Aquele som, por ser diferente, é uma surpresa agradável para o seu cérebro, mesmo que no fundo você não goste daquela canção. Isso vale principalmente para músicas novas.

Já o segundo é o aspecto da memória: uma pessoa, um acontecimento, um objeto ou mesmo uma batida ritmada podem te fazer lembrar de uma música que, de alguma forma, foi associada a esse elemento. Uma palavra também pode funcionar aqui — o meu sobrenome que o diga.

Como terceiro fator há o estado emocional: estresse, surpresa, alegria ou tristeza, por exemplo, podem te fazer lembrar de músicas ouvidas em circunstâncias parecidas. O oposto também ocorre: quando a mente está dispersa, indicando estado afetivo próximo de neutro ou baixa atividade cognitiva, o imaginário involuntário musical também pode ser estimulado. Esse é o quarto gatilho.

Mas como tirar essa bendita música da mente?

Só pelos fatores mencionados anteriormente fica fácil saber: por mais que você lute, uma hora ou outra alguma música ficará na sua cabeça. Se nem sempre é possível evitá-la, ao menos há alguns macetes que permitem que você se livre dela mais rapidamente.

Uma delas é um tanto óbvia: evite ao máximo ouvir aquela música que você percebeu que pode grudar na cabeça. A repetição pode ajudar a fixar a canção. O problema aqui é que nem sempre você tem esse controle: o vizinho pode colocar a música para todo o quarteirão ouvir, um comercial de TV ou no Spotify pode reproduzí-la, um ser amaldiçoado pode passar na rua tocando-a alto no carro e assim por diante.

cantando

Outra dica que talvez você já pratique é a de ouvir outras canções, principalmente aquelas que estão entre as suas preferidas. Como essas músicas têm forte influência emocional em você, o cérebro pode acabar se ocupando delas e, assim, deixar de priorizar aquela que esteja grudando. Um estudo da Universidade da Califórnia sugere que cantar em voz alta pode ter um efeito ainda mais eficaz.

Se você não estiver afim de ouvir música ou desistiu de cantar depois de ter sido expulso do karaokê, há um estudo da Universidade Western Washington que sugere que você resolva anagramas, inicie algum jogo ou leia um livro, por exemplo. Essas atividades igualmente ocupam o cérebro, que acabará por redefinir as suas prioridades. Mas há uma ressalta aqui: se a atividade escolhida for demasiadamente simples, o cérebro não irá se concentrar o suficiente; se muito complexa, a sua mente tentará dispersar, fazendo a música voltar.

Obama / chicleteMas o título de dica mais inusitada vai para a que foi dada por Philip Beaman, professor da Universidade de Reading: mascar chiclete. “Quando você tenta lembrar uma canção, usa muitos dos mecanismos que usaria para se preparar para falar e cantar. E, se você está mascando chiclete, acaba usando esses mesmos sistemas para planejar os movimentos da sua mandíbula”, explica Beaman à BBC.

O truque aqui, ainda segundo Beaman, é que deixar a mandíbula em ação ativa as regiões do cérebro responsáveis pela fala de uma forma que elas acabam ficando menos disponíveis para atuar na fixação de música grudentas.

Caso nenhum macete dê resultado, vale tentar não se preocupar com o problema. Quando você tenta controlar um estado ou uma atividade mental com muita determinação, pode obter resultados contrários. Como consequência, a música demora mais para sair da mente.

Não é difícil agir assim (sem preocupação com músicas que grudam), afinal, não estamos falando de algo que causa impacto negativo na vida (a não ser que você tenha um problema semelhante ao da mulher que foi tratada por Oliver Sacks). A ciência dedica atenção ao assunto mais para compreender a mente humana e para resolver problemas aparentemente relacionados, como pensativos prejudiciais que surgem sem razão aparente.

Uma música que fica na mente acaba sendo como bocejar quando outra pessoa boceja ou ficar vermelho diante de uma situação embaraçosa: tentamos evitar ou compreender as causas, mas, no final das contas, conseguimos conviver com isso.

Como se livrar das músicas que grudam na cabeça


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