Maranhão: destino acadêmico para estudantes africanos

maranhaooAo circular pelo campus da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), você pode se deparar com estudantes de diversas nacionalidades. Boa parte destes discentes estrangeiros faz parte do Programa Estudante-Convênio de Graduação, o PEC-G. Ao todo, 29 estudantes já passaram pelo programa, sendo boa parte dele provenientes da África. Vindo de países como Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Congo e Nigéria, os estudantes buscam, no Brasil, a oportunidade de garantirem uma graduação e pós-graduação de qualidade.

Na segunda reportagem da série sobre as peculiaridades das comunidades formadas por esses imigrantes, pode-se conferir que, além da intenção de aprimorar seus níveis de conhecimento em diversos cursos, como Odontologia, Comunicação Social e Educação Artística, por exemplo, alguns estudantes, afirmam que a capital maranhense apresenta, além do sistema educacional, questões sociais e políticas bem diferentes (e melhor resolvidas) que seus países natais. E tornam-na, portanto, um local ideal para fazer aquilo que eles mais ambicionam: estudar.

Ambições

Recém-chegados em terras maranhenses, os angolanos Osmilde Miranda, de 21 anos, e Anacleto Aníbal Xavier, de 25 anos, já especulam sobre o período de conhecimento e aprendizagem que irão desfrutar nos próximos quatro, cinco anos.

Para Osmilde, que cursará Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, na UFMA, a experiência de estar em solo maranhense já está sendo muito boa. “A estrutura do Estado é um modelo muito bom. A educação de nível superior parece ter muito desenvolvimento, pois o Estado parece estar em desenvolvimento”, afirmou.

Entretanto, os elogios do jovem ao Estado do Maranhão se devem, em boa parte, as mazelas encontradas em continente africano. “A educação na Angola não é uma coisa fácil. O ensino básico não é facilitado, pois o individuo é instruído a não ter o poder de reivindicar seus direitos. O governo não incentiva a juventude e, por isso, a maioria da população é iletrada”, refletiu o estudante.

Interessado pelas relações comunicacionais existentes na Angola, Osmilde afirma que quer retornar ao país para reivindicar a dominação do governo nos meios de comunicação. “O objetivo de fazer este curso em São Luís é para abrir a visão da população angolana à verdade”, acrescentou o estudante.

Já Anacleto, futuro profissional do curso de Ciências Econômicas, afirma que a economia, representada pelo dinheiro e pelas grandes indústrias, têm dominado o mundo e, principalmente, países mais frágeis economicamente, como a Angola. “A corrupção existente na gerência do lado econômico da Angola foi um dos motivos que me fez sair de lá. Com a corrupção, eles não propiciam uma educação de ponta”, disse.

Tal como Osmilde, o estudante pretende regressar ao seu país natal com a certeza de que pôde adquirir, na UFMA, uma educação de qualidade e desenvolvida e ajudar, enfim, o continente africano. “O meu foco é estudar e poder, também, ter uma educação mais desenvolvida e chegar a Angola pra mostrar tudo o que eu aprendi aqui”, afirmou.

Dificuldades

Enquanto alguns estudantes chegam ao Estado, outros regressam ao seu país de origem com a certeza de ter cumprido a missão pensada há quatro, cinco anos. Como é o caso de Adriano Damião Kilala, estudante africano que se forma, ainda, este ano no Curso de Educação Artística pela UFMA e retorna a Angola ainda no fim do ano.

Para o estudante, que trabalhava em seu país como arquivologista, despertou o interesse de vir ao Brasil, mais precisamente ao Maranhão, depois de considerar que, na Angola, há um grande interesse pela formação de um estudante, no ensino superior, em um país em desenvolvimento.

A ideia era fazer o primeiro período de educação artística em São Luís e depois transferir para arquivologia em outro lugar”, afirmou o estudante que, com o gosto tanto pelo curso, quanto pela cidade, acabou não se transferindo. Apesar do gosto pela arte, o estudante se preocupa quanto ao futuro e seu regresso à África. “O único impedimento do curso é a remuneração e eu não teria condições de me manter em outro país”, analisou.

Por outro lado, foi em São Luís que o angolano despertou diversos conhecimentos que ele nem sabia que os tinha. Entre eles, Adriano Kilala enumera: a pintura em tela; desenhista; músico; ator; educador; designer gráfico; fotografo; cerigrafo; e, é claro, educador artístico.

Para ele, desenvolver tantos domínios dependeu do incentivo e do direcionamento dados pelas pessoas envolvidas no curso e no programa. “A experiência foi muito enriquecedora. Hoje eu entendo que são Luis foi o melhor pra estar pois tive um bom momento de adaptação e socialização, recebendo muita atenção e direcionamento das pessoas que trabalham no PEC-G, na UFMA e no Departamento de Organização Acadêmica (Deoac)”, completou.

Programa PEC-G

Criado a partir da ideia de atuar como um instrumento de cooperação educacional, cientifica e tecnológica, o PEC-G oferece as condições necessárias aos estudantes para que estes criem uma estadia satisfatória durante o período de estudo em terras brasileiras. O programa é coordenado pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE); Divisão de Temas Educacionais (DCE); Ministério da Educação (MEC); Secretaria de Ensino Superior (SESu); Instituições de Ensino Superior (IES).

Para Campos Júnior, sub-coordenador do programa na UFMA, a importância do programa se concentra na possibilidade de expandi-lo em plano multicultural. “Vejo a importância desse projeto como a possibilidade de ampliar nossa experiência com outras culturas. Nós brasileiros, somos fechados em nós mesmos. Temos uma relação cultural mais intensa com a Europa e Estados Unidos do que com povos africanos ou nossos vizinhos da América Latina. Além do mais, há um ganho acadêmico. (…) Não podemos esquecer que este país foi construído com trabalho de africanos arrancados forçadamente de seus países”, afirmou.

Fonte: Portal do Maranhão

 

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